Grupo de sertanejas utiliza a fibra do
caroá para a confecção de peças artesanais, sem no
entanto, destruir a planta. Elas aprenderam uma técnica
de cortar folhas que mantém a bromélia viva
VERÔNICA FALCÃO
Três Marias, duas Josefas e um sonho: extrair a
folha do caroá, bromélia da caatinga usada na produção
de artesanato, sem destruir a planta. Maria de Fátima,
29 anos, Josefa Maria, 39, Maria José, 37, Josefa, 39, e
Giovânia, 25, cinco moradoras de Caroalina, no Sertão de
Pernambuco, estão perto de atingir o objetivo.
Organização não-governamental (ONG) que trabalha há um
ano e meio com o grupo descobriu que cortar as folhas,
no lugar de arrancar, mantém o caroá vivo.
“Antes, quando a gente arrancava as folhas, muitas
vezes o pé de caroá vinha junto. Usando a faca isso não
acontece”, diz a artesã Maria José Freire, mãe de duas
meninas. A técnica é resultado de uma pesquisa da
Associação Plantas do Nordeste (APNE). A ONG acompanhou
durante um mês no período seco e outro no chuvoso o
desenvolvimento da planta.
O estudo foi realizado em oito parcelas de dez metros
quadrados cada. A agrônoma da APNE Joselma Maria
Figueirôa comparou a regeneração do caroá em quatro
delas em abril, quando chove no Sertão, e quatro em
agosto, durante a estiagem.
Em cada uma das estações uma das parcelas foi
destinada ao corte das folhas a 20 centímetros do chão.
Outra, a 10 centímetros. Na terceira o caroá era
arrancado, como ocorre no método normalmente utilizado
pelos artesãos. A quarta parcela ficou como testemunho,
sem nenhum tipo de utilização. “A melhor época para a
extração do caroá é no período chuvoso. Na estiagem, o
peso das folhas é três vezes maior, mas a coleta é mais
difícil”, explica Joselma. A pesquisadora identificou
ainda que o corte a dez centímetros do chão é o que
apresenta maior rendimento.
Em Caroalina, distrito de Sertânia, a 315 quilômetros
do Recife, o caroá tem dois usos: produção de papel e de
fibras para cestaria. As artesãs picam e cozinham as
folhas. Depois trituram para obter uma pasta que é
prensada numa tela e, quando seca, se transforma em
folhas de papel.
Para fazer as cestas, elas batem as folhas até obter
a fibra e depois fazem o trançado. “A gente queria
confeccionar mais cestas e bolsas, que têm mais saída
que o papel, mas falta aprender novas técnicas”, diz
Josefa Freire de Lima, que tem quatro filhos.
Josefa e Maria José aprenderam a obter a fibra do
caroá ainda meninas, com as mães e avós. “A gente fazia
uma tira que os produtores de carvão compravam para
amarrar os sacos. Depois eles passaram a usar barbante e
nunca mais a gente tirou caroá da caatinga”, conta
Josefa.
A fibra do caroá, lembra o biólogo da Univasf José
Alves Siqueira, já foi largamente utilizada no Sertão
nordestino como matéria-prima da indústria têxtil.
“Atualmente o caroá gera renda complementar, com a
confecção de peças artesanais.” Para o professor, o
caroá também tem potencial ornamental, “devido à
excentricidade das folhas e beleza das flores, de
intenso vermelho com contrastes azuis.”
Para as mulheres de Caroalina, a produção de papel
tem funcionado mais como uma terapia de grupo do que
como uma fonte de renda. “É bom estarmos juntas
conversando e fazendo o papel. Ganhar dinheiro a gente
não ganhou até agora”, conta Giovânia da Silva Freire,
também mãe de duas meninas.
O projeto resultou ainda em outras conquistas, além
da agregação das mulheres. Elas estão aprendendo a ler e
a escrever, graças a uma intervenção da APNE junto à
Prefeitura de Sertânia, com 31.732 habitantes. Das
cinco, apenas Maria José é alfabetizada. “Cheguei a ir
pra escola, mas nunca consegui aprender. Agora estou
tentando de novo”, conta Josefa.
Para a professora da Escola Maria Morais escalada
para ensinar às mulheres, Márcia Maria de Siqueira
Silva, 37, também se trata de uma experiência nova. “Até
hoje só ensinei a crianças e, como não me preparei para
lidar com adultos, estou aprendendo no dia-a-dia.”
Além de artesanato, as mulheres de Caroalina fazem
xaropes, pomadas e sabonetes medicinais. As ervas são
cultivadas num canteiro montado pela APNE, parcialmente
destruído pelas últimas chuvas. O dinheiro arrecadado
com a venda até agora só deu para cobrir os gastos com a
produção. “Nossa esperança é ter alguma renda”, diz
Maria José.