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PROJETO

Artesãs ganham a vida sem destruir caatinga
Publicado em 27.03.2005

Grupo de sertanejas utiliza a fibra do caroá para a confecção de peças artesanais, sem no entanto, destruir a planta. Elas aprenderam uma técnica de cortar folhas que mantém a bromélia viva

VERÔNICA FALCÃO

Três Marias, duas Josefas e um sonho: extrair a folha do caroá, bromélia da caatinga usada na produção de artesanato, sem destruir a planta. Maria de Fátima, 29 anos, Josefa Maria, 39, Maria José, 37, Josefa, 39, e Giovânia, 25, cinco moradoras de Caroalina, no Sertão de Pernambuco, estão perto de atingir o objetivo. Organização não-governamental (ONG) que trabalha há um ano e meio com o grupo descobriu que cortar as folhas, no lugar de arrancar, mantém o caroá vivo.

“Antes, quando a gente arrancava as folhas, muitas vezes o pé de caroá vinha junto. Usando a faca isso não acontece”, diz a artesã Maria José Freire, mãe de duas meninas. A técnica é resultado de uma pesquisa da Associação Plantas do Nordeste (APNE). A ONG acompanhou durante um mês no período seco e outro no chuvoso o desenvolvimento da planta.

O estudo foi realizado em oito parcelas de dez metros quadrados cada. A agrônoma da APNE Joselma Maria Figueirôa comparou a regeneração do caroá em quatro delas em abril, quando chove no Sertão, e quatro em agosto, durante a estiagem.

Em cada uma das estações uma das parcelas foi destinada ao corte das folhas a 20 centímetros do chão. Outra, a 10 centímetros. Na terceira o caroá era arrancado, como ocorre no método normalmente utilizado pelos artesãos. A quarta parcela ficou como testemunho, sem nenhum tipo de utilização. “A melhor época para a extração do caroá é no período chuvoso. Na estiagem, o peso das folhas é três vezes maior, mas a coleta é mais difícil”, explica Joselma. A pesquisadora identificou ainda que o corte a dez centímetros do chão é o que apresenta maior rendimento.

Em Caroalina, distrito de Sertânia, a 315 quilômetros do Recife, o caroá tem dois usos: produção de papel e de fibras para cestaria. As artesãs picam e cozinham as folhas. Depois trituram para obter uma pasta que é prensada numa tela e, quando seca, se transforma em folhas de papel.

Para fazer as cestas, elas batem as folhas até obter a fibra e depois fazem o trançado. “A gente queria confeccionar mais cestas e bolsas, que têm mais saída que o papel, mas falta aprender novas técnicas”, diz Josefa Freire de Lima, que tem quatro filhos.

Josefa e Maria José aprenderam a obter a fibra do caroá ainda meninas, com as mães e avós. “A gente fazia uma tira que os produtores de carvão compravam para amarrar os sacos. Depois eles passaram a usar barbante e nunca mais a gente tirou caroá da caatinga”, conta Josefa.

A fibra do caroá, lembra o biólogo da Univasf José Alves Siqueira, já foi largamente utilizada no Sertão nordestino como matéria-prima da indústria têxtil. “Atualmente o caroá gera renda complementar, com a confecção de peças artesanais.” Para o professor, o caroá também tem potencial ornamental, “devido à excentricidade das folhas e beleza das flores, de intenso vermelho com contrastes azuis.”

Para as mulheres de Caroalina, a produção de papel tem funcionado mais como uma terapia de grupo do que como uma fonte de renda. “É bom estarmos juntas conversando e fazendo o papel. Ganhar dinheiro a gente não ganhou até agora”, conta Giovânia da Silva Freire, também mãe de duas meninas.

O projeto resultou ainda em outras conquistas, além da agregação das mulheres. Elas estão aprendendo a ler e a escrever, graças a uma intervenção da APNE junto à Prefeitura de Sertânia, com 31.732 habitantes. Das cinco, apenas Maria José é alfabetizada. “Cheguei a ir pra escola, mas nunca consegui aprender. Agora estou tentando de novo”, conta Josefa.

Para a professora da Escola Maria Morais escalada para ensinar às mulheres, Márcia Maria de Siqueira Silva, 37, também se trata de uma experiência nova. “Até hoje só ensinei a crianças e, como não me preparei para lidar com adultos, estou aprendendo no dia-a-dia.”

Além de artesanato, as mulheres de Caroalina fazem xaropes, pomadas e sabonetes medicinais. As ervas são cultivadas num canteiro montado pela APNE, parcialmente destruído pelas últimas chuvas. O dinheiro arrecadado com a venda até agora só deu para cobrir os gastos com a produção. “Nossa esperança é ter alguma renda”, diz Maria José.

 
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