Projetos desenvolvidos por ONGs ensinam
famílias sertanejas a extrair lenha de forma racional.
Técnica utilizada no corte para a produção de carvão
permite que as árvores
rebrotemVERÔNICA FALCÃO
Com a ajuda de organizações
não-governamentais, agricultores do Sertão pernambucano
estão produzindo carvão a partir da lenha extraída da
caatinga de forma racional. O projeto, que abrange oito
famílias, adota o corte das árvores 30 centímetros acima
do chão, permitindo que elas rebrotem.
O agricultor Artur Brasiliano de Siqueira, 53 anos, é
um dos envolvidos com o projeto. Há um ano ele teve sua
propriedade, em Sertânia, a 305 quilômetros do Recife,
dividida em três setores pelos engenheiros florestais e
agrônomos da Associação Plantas do Nordeste (APNE).
Dos 34,3 hectares, 18,7 foram destinados ao
manejo florestal, 8,7, à agricultura, e 6,9, à reserva
legal, área equivalente a 20% da propriedade rural
obrigatoriamente destinada à preservação, de acordo com
o Código Florestal (Lei Nº 4.771/65).
Os técnicos dividiram a porção do sítio de Artur
destinada ao manejo em 15 parcelas. Todo ano uma parcela
diferente é explorada. Dessa forma, cada área desmatada
terá 15 anos para se recompor. Esse é o tempo
suficiente, acredita a equipe da APNE, para as árvores
crescerem a ponto de poder serem cortadas novamente.
“Antes cortava tudo de uma vez pra fazer carvão.
Nunca planejei nada”, lembra Artur. O agricultor diz que
só poupava do machado seis espécies: a baraúna e a
aroeira, “porque o Ibama proíbe”, o juazeiro e o
umbuzeiro, “porque dão sombra, fruta e alimento pro
gado”, o angico, “porque dá madeira boa pra construção”,
e a quixabeira, “de onde a gente faz um chá pra espalhar
o sangue quando se leva uma queda ou uma pancada.”
Morador do Sítio Pitombeira, no distrito do Rio do
Barro, Artur revela que aderiu ao manejo da caatinga
para produzir carvão legalizado. “Vendia tudo mais
barato e vivia com medo de ser pego pelo Ibama”, lembra.
“Agora o carvão custa um pouco mais e estou tranqüilo em
relação às regras.”
Um saco de carvão, com 30 quilos, custa R$ 4. Na
feira de Campina Grande (PB), para onde a produção de
Artur é transportada, é vendido a R$ 6. De maio a
dezembro, período de maior produção, o agricultor chega
a comercializar 100 sacos por mês. Artur receberá
assistência técnica da APNE por dois anos.
O projeto, financiado pelo Royal Botanic Garden de
Kew, na Inglaterra, o Ministério Flamengo de Meio
Ambiente e o Ministério de Meio Ambiente do Brasil,
prevê a assistência técnica gratuita para produtores de
carvão de Sertânia e Serra Talhada.
“Um plano de manejo custaria cerca de R$ 2 mil. A
maioria dos pequenos produtores de carvão não tem como
arcar com esse custo”, explica a engenheira florestal
Emília Cabral, uma das técnicas do projeto, que se
propõe e abranger 30 agricultores até 2006.
O Projeto Madeiras tem ainda o apoio da Empresa
Pernambucana de Pesquisa Agropecuária (IPA), responsável
pela identificação das espécies de árvores mais
adequadas ao manejo. Para os sertanejos, a catingueira é
a que fornecem a melhor lenha para carvão, mas o
zootecnista do IPA Valderez Martins da Silva, aponta
ainda o pereiro, a jurema-de-imbira e a algaroba,
espécie introduzida no Sertão na década de 40 e hoje
considera uma praga.