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PRESERVAÇÃO

Agricultor faz carvão sem destruir caatinga
Publicado em 20.03.2005

Projetos desenvolvidos por ONGs ensinam famílias sertanejas a extrair lenha de forma racional. Técnica utilizada no corte para a produção de carvão permite que as árvores rebrotem

VERÔNICA FALCÃO

Com a ajuda de organizações não-governamentais, agricultores do Sertão pernambucano estão produzindo carvão a partir da lenha extraída da caatinga de forma racional. O projeto, que abrange oito famílias, adota o corte das árvores 30 centímetros acima do chão, permitindo que elas rebrotem.

O agricultor Artur Brasiliano de Siqueira, 53 anos, é um dos envolvidos com o projeto. Há um ano ele teve sua propriedade, em Sertânia, a 305 quilômetros do Recife, dividida em três setores pelos engenheiros florestais e agrônomos da Associação Plantas do Nordeste (APNE).

Dos 34,3 hectares, 18,7 foram destinados ao manejo florestal, 8,7, à agricultura, e 6,9, à reserva legal, área equivalente a 20% da propriedade rural obrigatoriamente destinada à preservação, de acordo com o Código Florestal (Lei Nº 4.771/65).

Os técnicos dividiram a porção do sítio de Artur destinada ao manejo em 15 parcelas. Todo ano uma parcela diferente é explorada. Dessa forma, cada área desmatada terá 15 anos para se recompor. Esse é o tempo suficiente, acredita a equipe da APNE, para as árvores crescerem a ponto de poder serem cortadas novamente.

“Antes cortava tudo de uma vez pra fazer carvão. Nunca planejei nada”, lembra Artur. O agricultor diz que só poupava do machado seis espécies: a baraúna e a aroeira, “porque o Ibama proíbe”, o juazeiro e o umbuzeiro, “porque dão sombra, fruta e alimento pro gado”, o angico, “porque dá madeira boa pra construção”, e a quixabeira, “de onde a gente faz um chá pra espalhar o sangue quando se leva uma queda ou uma pancada.”

Morador do Sítio Pitombeira, no distrito do Rio do Barro, Artur revela que aderiu ao manejo da caatinga para produzir carvão legalizado. “Vendia tudo mais barato e vivia com medo de ser pego pelo Ibama”, lembra. “Agora o carvão custa um pouco mais e estou tranqüilo em relação às regras.”

Um saco de carvão, com 30 quilos, custa R$ 4. Na feira de Campina Grande (PB), para onde a produção de Artur é transportada, é vendido a R$ 6. De maio a dezembro, período de maior produção, o agricultor chega a comercializar 100 sacos por mês. Artur receberá assistência técnica da APNE por dois anos.

O projeto, financiado pelo Royal Botanic Garden de Kew, na Inglaterra, o Ministério Flamengo de Meio Ambiente e o Ministério de Meio Ambiente do Brasil, prevê a assistência técnica gratuita para produtores de carvão de Sertânia e Serra Talhada.

“Um plano de manejo custaria cerca de R$ 2 mil. A maioria dos pequenos produtores de carvão não tem como arcar com esse custo”, explica a engenheira florestal Emília Cabral, uma das técnicas do projeto, que se propõe e abranger 30 agricultores até 2006.

O Projeto Madeiras tem ainda o apoio da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária (IPA), responsável pela identificação das espécies de árvores mais adequadas ao manejo. Para os sertanejos, a catingueira é a que fornecem a melhor lenha para carvão, mas o zootecnista do IPA Valderez Martins da Silva, aponta ainda o pereiro, a jurema-de-imbira e a algaroba, espécie introduzida no Sertão na década de 40 e hoje considera uma praga.

 
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