Metodologia do Seminário de Planejamento Ecorregional

Definição das ecorregiões

O objetivo principal do Seminário de Planejamento Ecorregional da Caatinga - 1a Etapa foi chegar a um consenso sobre uma proposta das grandes subdivisões reais da biodiversidade da caatinga, o que seriam as ecorregiões. Uma ecorregião é assim definida: é uma unidade relativamente grande de terra e água delineada pelos fatores bióticos e abióticos que regulam a estrutura e função das comunidades naturais que lá se encontram. É portanto um grande bloco geográfico que engloba diversos sistemas biológicos, que podem ser diversos entre si, mas que se diferenciam de outros por possuírem grandes processos bióticos (ex.: padrões de distribuição de taxa) e abióticos (ex.: clima, história geomorfológica) que os conectam de alguma maneira. As fronteiras entre ecorregiões correspondem a lugares onde fatores controladores mudam significativamente, por exemplo, padrões de precipitação, altitude ou relevo. Em geral, diversos fatores controladores sofrem alterações significativas nessas zonas de fronteira (Bailey, 1998).

O conceito de ecorregiões foi inicialmente desenvolvido por biólogos, ecólogos e conservacionistas do mundo inteiro a partir dos anos 40 e consolidado para a América do Norte por Robert G. Bailey (1976, 1995) do Serviço Florestal dos Estados Unidos. Por isso, naquele país é conhecido como o "Sistema Bailey". A partir da Conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 1992 ("Eco92"), o sistema foi adotado no mundo inteiro como uma ferramenta fundamental para o planejamento ambiental. As ecorregiões buscam refletir a verdadeira distribuição da biodiversidade e por isso são muito úteis para a definição de planos de desenvolvimento sustentável e de conservação, assegurando a eficiência e a eficácia de ações.

O processo de definição de ecorregiões depende do consenso científico. Cientistas são consultados para identificar, dentro de uma determinada área sob estudo, os sistemas ecológicos que definem as ecorregiões e suas fronteiras, que são onde os processos ecológicos mudam. A metodologia utilizada para definir as ecorregiões da caatinga foi inspirada em esforços pré-existentes para definir as subdivisões ecológicas de grandes biomas. Foram reunidos todos os subsídios que sintetizam as informações sobre solos, clima, vegetação, geomorfologia e geologia da região (principalmente em forma de mapas, incluídos no Anexo 3), imagens de satélite (www.cnpm.embrapa.br) e o conhecimento dos especialistas presentes no Seminário. Essas informações, que compõem a base para a distribuição da biota, foram trabalhadas em conjunto para chegar a um consenso sobre as subdivisões da caatinga.

Para iniciar os trabalhos, os limites geográficos do bioma Caatinga foram considerados tais como indicados pelo Seminário Caatinga do PROBIO (www.biodiversitas.org/caatinga). Entretanto, após a análise dos especialistas, foram sugeridas algumas alterações naqueles limites, recomendando a inclusão de algumas regiões e exclusão de outras, conforme apresentado no Anexo 1. As discussões preliminares do grupo de trabalho focalizaram nos principais fatores controladores da distribuição da biodiversidade na caatinga, que são ligados à sazonalidade, disponibilidade de água (no solo e regime de chuvas), características do solo, geomorfologia, relevo (incluindo barreiras geográficas) e história da biota. Os participantes do Seminário foram então divididos inicialmente em dois grupos, que prepararam propostas preliminares para estabelecer os limites das ecorregiões, consolidadas em seguida na plenária. Os limites exatos de cada ecorregião tomaram por base os limites externos cabíveis de áreas do ZANE (solos). Um técnico em SIG foi encarregado de juntar os mapas e consolidar as informações. Foi feita uma descrição final de cada ecorregião, identificando suas características físicas principais, tipos de vegetação, endemismos e espécies características (principalmente flora), explicação dos limites, fatores controladores de seus sistemas ecológicos e estado de conservação.

Próximos passos

Os resultados do Seminário estão sendo divulgados com o objetivo de apresentá-los à comunidade científica e organismos de meio-ambiente, para que possam ser consolidados e aperfeiçoados à medida em que novas informações forem surgindo.

As ecorregiões aqui apresentadas representam o primeiro passo do processo de planejamento ecorregional utilizado pela TNC. Os próximos passos incluem primeiramente receber o retorno da comunidade científica sobre a proposta aqui apresentada, com o intuito de melhorar o mapa e consolidar ainda mais o consenso científico alcançado durante o evento em Aldeia, Pernambuco em novembro de 2001. Após esse processo, a TNC pretende desenvolver o planejamento ecorregional propriamente dito. Isso envolve a seleção e desenho de redes de áreas necessárias para a conservação da diversidade de espécies, comunidades ecológicas e sistemas ecológicos em cada ecorregião. A metodologia proposta para isso, desenvolvida por diversos autores que trabalham na TNC, já está disponível em português pela internet no endereço www.conserveonline.org/2000/11/b/pt/GoH(P).pdf;path= , em um manual de dois volumes chamado Planejando uma Geografia de Esperança: Manual Técnico para Planejamento da Conservação Ecorregional.

Os resultados aqui obtidos serão também a base para ações futuras da APNE, que orientará projetos e pesquisas para as áreas e ecorregiões indicadas como prioritárias.

Produtos

O produto principal do Seminário, apresentado em seguida, é um mapa das ecorregiões da caatinga, bem como descrições de cada uma, incluindo informações sobre suas características gerais, tipos de vegetação, estado de conservação, e unidades de conservação existentes. O segundo produto é uma avaliação das áreas prioritárias do PROBIO por ecorregião para ação de conservação, de acordo com a análise preliminar do grupo, com base nos critérios descritos na seção Análise das áreas prioritárias definidas pelo PROBIO. Ao final da seção de descrições das ecorregiões foi feita uma avaliação da urgência de ação para cada uma das ecorregiões. Os produtos publicados neste documento estão também disponíveis através da internet nas páginas das instituições responsáveis pela organização e coordenação do Seminário (www.nature.org e www.plantasdonordeste.org).

Referências

Bailey, R. G. 1976. Ecoregions of the United States. Ogden, Utah, EUA: USDA Forest Service, Intermountain Region. 1:7.500.000; colorido.

Bailey, R. G. 1995. Description of the Ecoregions of the United States, 2nd edition. Misc. Publ. 1391. Washington, D. C.: USDA Forest Service. 108 pp. e mapa 1:7.500.000.

Bailey, R. G. 1998. Ecoregions: the ecosystem geography of the oceans and continents. Springer-Verlag: New York. 176pp. Dinerstein, E., D. M. Olson, D. J. Graham, A. L. Webster, S. A. Primm, M. P. Bookbinder e G. Ledec. 1995. A conservation assessment of the terrestrial ecoregions of Latin America and the Caribbean. The World Bank: Washington, D. C. 129pp.

Embrapa Monitoramento por Satélite. 2001. Brasil Visto do Espaço: Nordeste. www.cdbrasil.cnpm.embrapa/ne/index.html .

Olson, D. M., E. Dinerstein, E. D. Wikramanayake, N. D. Burgess, G. V. N. Powell, E. C. Underwood, J. A. D'Amico, I. Itoua, H. E. Strand, J. C. Morrison, C. J. Loucks, T. F. Allnutt, T. H. Ricketts, Y. Kura, J. F. Lamoreaux, W. W. Wettengel, P. Hedao e K. R. Kassem. 2001. Terrestrial Ecoregions of the World: a new map of life on Earth. BioScience 51:11, 933-938.

PROBIO. 2000. Seminário sobre Avaliação e Identificação de Ações Prioritárias para a Conservação, Utilização Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade do Bioma Caatinga. www.biodiversitas.org/caatinga .

Rodrigues e Silva, F. B., G. R. Riché, J. P. Tonneau, N. C. de Souza Neto, L. T. L. Brito, R. C. Correia, A. C. Cavalcanti, F. H. B. B. da Silva, A. B. da Silva, J. C. de Araújo Filho e A. P. Leite. 1993. Zoneamento Agroecológico do Nordeste: Diagnóstico do quadro natural e agrossocioeconômico. 2 vols. Embrapa CPATSA: Petrolina, Pernambuco.

Rodrigues e Silva, F. B., J. C. P. dos Santos, N. C. de Souza Neto, A. B. da Silva, G. R. Riché, J. P. Tonneau, L. T. L. Brito, R. C. Correia, F. H. B. B. da Silva, C. P. da Silva, A. P. Leite, M. B. de Oliveira Neto, R. B. V. Parahyba, J. C. de Araújo Filho, A. C. Cavalcanti, N. Burgos e R. M. G. Reis. 2000. Zoneamento Agroecológico do Nordeste: Diagnóstico e Prognóstico. CD-ROM. Embrapa Solos e Embrapa Semi-Árido: Recife, Pernambuco.